Anomalias

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Sempre que tentamos ler a linguagem corporal de alguém, devemos prestar extrema atenção aos momentos em que ela muda — isto é, sempre que a linguagem corporal se desvia de seu estado basal normal. Esses desvios podem ser compreendidos como anomalias na linguagem corporal, pois constituem desvios do padrão habitual.

Se tentássemos ler a linguagem corporal de alguém a partir de uma fotografia estática, não aprenderíamos muita coisa, pois não conheceríamos as circunstâncias que levaram a pessoa a posicionar o corpo daquela forma. Talvez ela esteja genuinamente feliz e pulando de alegria — ou talvez tenha apenas recebido instruções para posar diante da câmera.

Ao conversar com alguém presencialmente, contudo, alterações na linguagem corporal frequentemente indicam que algo mudou naquilo que a pessoa está sentindo. Você não saberá com precisão o que ela sentia antes nem o que passou a sentir, mas, assumindo que não houve estímulos externos — como ser cutucado com uma vara pontiaguda —, uma alteração na postura significa que algo a impactou.

Para detectar quando a linguagem corporal de alguém se altera em relação ao seu estado basal, precisamos primeiro estabelecer uma linha de base de como é sua linguagem corporal habitual. Para isso, é necessário observá-la em um estado neutro, no qual esteja relaxada e confortável. No entanto, conduzir alguém a um estado neutro tende a exigir um pouco de paciência.

Pense em uma entrevista na qual o candidato se senta e é imediatamente bombardeado com perguntas. Se a linguagem corporal dele mudar a cada pergunta, você não fará ideia de qual é sua postura basal, o que tornará muito mais difícil interpretar a reação após cada questão apresentada. Por exemplo, se lhe fizerem uma pergunta difícil e ele parecer inquieto, sobressaltado ou nervoso — talvez seja porque achou a pergunta complexa, ou talvez porque bebeu café demais antes da entrevista.

Em vez de assaltar o entrevistado com perguntas, é preferível dedicar o tempo necessário no início da conversa para garantir que ele esteja calmo, relaxado e confortável. Considerando o nível de estresse que entrevistas representam para o candidato, acalmá-lo pode levar até meia hora, mas essa abordagem traz dois grandes benefícios: primeiro, permite observar sua linguagem corporal basal em um estado sereno e neutro; segundo, as pessoas acessam a memória e recuperam informações com muito mais eficiência quando estão relaxadas, permitindo uma avaliação mais fiel de seus reais conhecimentos.

Para ajudar alguém estressado a relaxar, tente conduzir a conversa para um tema que a pessoa considere positivo. Isso pode envolver falar sobre o clima, filmes, música, família, animais de estimação, hobbies, interesses ou qualquer outro assunto que claramente não represente um desafio nem faça parte de um interrogatório.

Com o passar do tempo, você notará o corpo da pessoa começar a relaxar, e ela poderá passar a espelhar a sua linguagem corporal. Se você estiver reclinado na cadeira, de pernas cruzadas e com as mãos visíveis, poderá perceber que, à medida que ela relaxa, também se recosta, cruza as pernas e posiciona as mãos à vista.

Tenha em mente que as pessoas tendem a se sentir mais seguras e confortáveis quando veem as mãos dos outros; portanto, ao tentar relaxar alguém, evite colocar as mãos sob a mesa ou nos bolsos.

Quando alguém espelha a linguagem corporal de outra pessoa, está sinalizando que ambas estão na mesma sintonia, alinhadas e pensando de maneira semelhante. O espelhamento ocorre de modo inconsciente; contudo, ao percebê-lo, você pode até se divertir ao se espreguiçar e observar a outra pessoa se espreguiçar em seguida, ou ao respirar fundo e vê-la respirar fundo logo depois. Como benefício adicional, fazer com que alguém espelhe sua respiração profunda tem o efeito de acalmá-lo ainda mais.

Após observar a pessoa em um estado neutro e relaxado, registre os detalhes de sua linguagem corporal. Ela costuma se sentar de pernas cruzadas, com as duas mãos entrelaçadas sobre o joelho? Costuma se reclinar com as pernas abertas, um braço sobre o encosto da cadeira e o outro no apoio de braço? Tem o hábito de fixar o olhar no horizonte enquanto pensa, ou fecha os olhos para se concentrar?

Tudo o que a pessoa fizer espontaneamente quando estiver confortável, em um ambiente neutro e sem estresse, representa sua linguagem corporal basal. A partir de então, à medida que avançar na conversa ou na elaboração de perguntas, preste muita atenção a qualquer mudança em sua linguagem corporal — por menor que seja. Além disso, observe atentamente a postura física no instante exato após algo ser dito ou perguntado: esse primeiro lampejo corporal, que ocorre em uma fração de segundo, costuma ser o mais revelador, pois é uma reação instintiva que foge ao controle consciente da pessoa.

O sistema límbico do nosso cérebro assume o controle do corpo sempre que nos sentimos ameaçados, acionando respostas instintivas de paralisia, fuga ou luta. Ao nos sentirmos desconfortáveis ou sob ameaça, o sistema límbico nos comanda a paralisar na tentativa de passarmos despercebidos. Se formos notados, ele nos estimula a fugir do perigo. Caso a fuga seja inviável, o sistema límbico nos prepara para lutar.

Não existe uma parte isolada do corpo responsável por reagir ao reflexo de paralisia, fuga ou luta — o corpo inteiro reage de forma integrada, ainda que essa reação seja rápida e quase imperceptível. Quando você diz algo ou faz uma pergunta e a pessoa subitamente congela, parece se preparar para correr ou assume postura de confronto — mesmo que recupere a compostura um segundo depois —, você sabe que algo a fez se sentir desconfortável ou ameaçada. Dependendo do seu objetivo, é possível optar por recuar ou avançar. Se optar por avançar, monitore de perto cada instante em que suas falas desencadearem alterações na linguagem corporal dela.

A realidade é que, mesmo quando identificamos um tópico ou uma pergunta que provoca uma mudança na postura de alguém, ainda não sabemos o que essa pessoa está pensando. Tudo o que podemos fazer é observar o impacto do que foi dito e formular hipóteses fundamentadas sobre o que pode ter causado essa alteração na linguagem corporal.